Os livros também crescem

Achei que escrever um livro era tarefa que começava e acabava no recolhimento solitário da minha mente, no bater surdo dos meus dedos nas teclas de computador. Não sabia ser essa apenas uma infância à qual se sucedem as mudanças do crescer: a face que muda, que arredonda, as pernas que crescem, o peito que enche. Desconhecia também que esse crescer pousa em mim como gotas de água que tardam em cair, mas que não secam, e antes se multiplicam nos raios dourados de um amanhecer que guardavam nelas. 

Não sabia que há um livro que se escreve e um livro que se recebe. O que se escreve é limpo, o que se recebe vem com dedadas das mãos dos outros, tem a capa amassada das vidas de outras vidas, as páginas rabiscadas pelos olhares de outros olhos. Neste livro que agora tenho, a cheirar a terra e mar dos sítios onde foi lido, pouso o orgulho de mãe que lembra uma criança que já não é, no adolescente que diz intenções com apuro, que engoma a roupa para as estórias, que rasga palavras afiadas com faca de manteiga. O meu livro molhado, rasgado, folheado, tão usado que nunca mais poderá estar na prateleira, a servir de decoração, e tão crescido que já não é meu. Tão longe de mim, que nunca esteve tão perto de me estremecer. 

Os livros também crescem e há que largá-los e deixá-los seguir a vontade que trazem dentro. Obrigada a quem dá a mão a este que parte, a quem o educa e lhe dá rumo, a quem o orienta fora do meu alcance e o ajuda a ser mais que um conjunto de letras deitadas numa toalha de papel.

@Rita Cruz. 2021

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