"... porque a vida, às vezes, não passa apenas, mas ultrapassa e atropela, e nunca mais se volta ao que se era."

Publicado pela Página a Página, o romance No País do Silêncio tem como pano de fundo a história recente de Portugal. É nesse contexto que várias histórias se desenvolvem, personagens unidos(as) pelo acaso, pela violência, pela imperfeição humana, pelos rasgos de luz que teimam em trespassar  um mundo sombrio.

Um tributo a quem vai além da mera sobrevivência em contextos hostis, onde a normalidade esbarra na feroz imposição do silêncio.

Excerto

Janeiro 1960
Sílvia

Foi o dia que me fez e quase me desfez, anos antes de eu ter nascido. O primeiro dia de regresso às aulas de 1960. Não o vivi, mas tantas vezes o ouvi e outras tantas o revisitei, que o tenho em mim como se lá tivesse estado.

Silvia viveu-o, e foi dela que mais o ouvi. Tinha chegado à pequena vila de Arabescos, no coração da Beira, há um par de semanas apenas. Vinha substituir a professora primária que se aposentara no arranque do Inverno, alegando questões de saúde. Inesperadamente, Silvia tinha sido convocada. E ali estava, personagem improvável  naquele dia, naquela vila.

O amanhecer encontrou-a acordada. Pouco tinha dormido. Não era o facto de não dar aulas há anos, de estar nervosa com o retomar da profissão. Não. Ou talvez também, em parte. Mas o centro das razões era outro, embora Sílvia soubesse bem que nem sempre era necessário haver centro e periferia. Depois da noite em que a tinham metido numa cela, a mão pesada da angústia aprendera a apertá-la sem requerer sustento, a agarrar o peito das dúvidas com dedos sôfregos e surdos. Bastava-lhe de alimento, parecia, esse momento passado, que Sílvia insistia em manter vivo, numa chama perpétua onde o arrojo cremava.

Nessa noite, contudo, houvera justificação. Um caminho aberto por onde  essa mão, suada de treino, viesse esmigalhar sono, despir coragem, abafar protesto. E ela viera, solícita. O convite nascera nos despojos do dia anterior. Domingo de missa na casa do Senhor. A primeira vez que as conhecia. Tinha-se metido a caminho acompanhada do pai, da mãe, dos dois filhos e da criada e avistara-as. Atentas. Reunidas no átrio, esperavam. Por ela. As senhoras decentes da vila.

“Então, o que acha de Arabescos?”

A voz aguçada de D.ª Maria dos Anjos Neves, que assim se apresentara, com nome completo. Escassa na estatura, magra de corpo, tinha o pescoço, o queixo e as orelhas engolidos na penugem farfalhuda de uma assombrosa gola de raposa. Dirigira a pergunta ao Dr. Alfredo, mas não despegara o olhar da nova professora, nem ocultara, no brilho cortante das pupilas, a ponteira de lâminas afiadas. Pequenina e definhada em tudo, menos naqueles glóbulos robustos.

“Muito agradável, muito agradável!” O médico respondera bem-disposto, alheio às entrelinhas. Abrira pulmões e enfiara volume considerável lá dentro. “E este ar puro da montanha, que me faz lembrar a minha aldeia… isto é uma maravilha!”

Era sempre fácil para o pai, pensara Sílvia, esfarelar o peso de um momento. D.ª Maria dos Anjos Neves sorrira, conquistada.

“Fique por cá então, Dr. Alfredo, que bem precisamos de um médico aqui na vila!”

“Quem me dera, quem me dera! Olhe que gostava muito de dar consultas no interior, mas tenho o consultório no Porto, só estou de passagem. Mas nunca se sabe, nunca se sabe…”

O pai não tinha qualquer intenção de exercer clínica na Vila de Arabescos. Soltara a hipótese por ser gesto simpático e mentira inconsequente. Todos os esforços eram necessários na batalha que se preparava.

D.ª Maria dos Anjos prosseguira com um monólogo na ponta da voz aguda, enquanto o frio de Inverno beirão arremetia, sapatos e mangas adentro. Que o marido percebia alguma coisa de medicina, tantos anos atrás da farmácia, mas que era o genro, acabado de se formar, que ia tomar conta do estabelecimento, mas que sim, claro, que um médico sabia mais qualquer coisinha de medicina, não que toda a gente pensasse assim ali, mas que ela percebia que, quando se passa tantos anos a estudar, o conhecimento devia de ser outro, ela percebia, sim, e que por isso a filha dela nascera já em hospital e não em casa, com a ajuda da esposa do merceeiro, a D.ª Cordélia, sem desmérito da mesma, que era senhora de grandes qualidades e ali estava ao lado dela.

Tudo num só fôlego.

As portas da igreja abertas, mas todos ali, à espera. Que ela se calasse. E que atirasse. Sílvia sabia que o monólogo não era mais que um afinar de pontaria.  De modo que, sem surpresa, D.ª Maria dos Anjos Neves terminara, compusera os óculos e dirigira-se a ela. Sorriso finado, embalsamado no que se lhe via de rosto.

“E a professora Sílvia, o que acha da vila?”

“Ainda vi muito pouco. Chegámos há duas semanas e a chuva manteve-nos em casa durante dias.”

Ao lado de D.ª Maria dos Anjos Neves, D.ª Cordélia interviera, senhora de expressão severa e tronco curvado, calada até então:

“Não é bem como as grandes cidades, imagino…”

“É mais pequena, sim, mas agradável…”

As interlocutoras ensaiaram um sorriso forçado que não amansara olhares. De pupilas atentas, mediam os milímetros de cada palavra.

Sílvia pouco saíra de casa até então. A chuva constantemente a cair, o Inverno da Beira a furar pele e meter-se nos ossos… mas sabia que na pequena vila todos a conheciam. Que era personagem pública. A senhora do Porto que vinha substituir a professora Anabela. Não, imaginava correctamente D.ª Cordélia. A Vila de Arabescos não era, de todo, como o Porto, onde Sílvia crescera, ou como Lisboa, onde trabalhara, se casara e tivera os dois filhos. A vila era pequena, despida e inóspita — no frio do ar e no gelo dos olhares.

Sílvia apertara a gola. O vento lambia-lhe o pescoço e descia-lhe ao peito.

A missa não tarda em começar.

“A senhora D.ª Eunice pensa ficar por cá?” D.ª Maria dos Anjos dirigira-se então à esposa do médico, sem abandonar a fixação em Sílvia. Uma pequena trégua, não mais que isso.

“Não, não! O meu marido, como disse, não pode deixar o Porto, de modo que eu…”

A resposta fora dada sem pensar e o fim da frase ficara a boiar no despropósito. Haveriam de lá chegar, mas fora a mãe que facilitara. Os olhares severos brilharam e Sílvia preparara-se.

“E o marido da Sr.ª Professora, não vem à missa?” atirara sem espera D.ª Maria dos Anjos.

“O meu marido vai à missa, sim, mas em Lisboa.” A resposta estava ensaiada. “Infelizmente não pode estar aqui connosco. Razões profissionais.”

“Mas com certeza não seria melhor estarem juntos, aqui, ou em Lisboa?” D.ª Maria dos Anjos insistira.

“A mulher quer-se ao lado do esposo” acrescentara D.ª Cordélia, seca e certeira, cano de espingarda à altura do alvo.

“Sim, claro!” Sílvia engolira em seco e concordara, sem afectar esforço. Tudo ensaiado. “É um sacrifício este ano, para que eu possa voltar a dar aulas… foi aqui que me colocaram.”

As palavras não agradavam. Olhares firmes, testas enrugadas. O silêncio adensava o frio.

“O meu marido viaja muito. Nem sempre está em casa… é um sacrifício este ano. Vamo-nos vendo aos fins-de-semana.”

Quantos fins-de-semana, até a vila perceber que ela não saía dali e nenhum marido ali vinha? Podia mentir mais e melhor, afirmar ser viúva. Mas decidira mentir menos e pior.

“Que profissão é essa do marido, que o faz viajar tanto?” D.ª Cordélia recargara, a sombra da mentira a insinuar-se-lhe por entre as cataratas.

“É repórter fotográfico.”

Jornalistas e repórteres, gente feita de cidade, de modos de vida libertinos. Não eram profissões de gente séria para os olhos que ajustavam alças de mira na sagrada manhã de domingo. Mais uma vez, podia ter mentido. Mas já bastava o resto.

D.ª Cordélia mastigara o silêncio que se seguira. Levara algum tempo a engoli-lo, e finalmente perguntara:

“Já conheceu a professora Januária?”

Sílvia acenara que não. Ia explicar, dizer que depois da missa, mas ao lado, D.ª Maria dos Anjos interrompera.

“Já aqui está há uns anos connosco. Uma óptima senhora!” Angariara acenos de cabeça e continuara: “Rígida com as crianças, é verdade” olhar fixo na nova professora “mas uma senhora como deve de ser.”

Soletrara o deve de ser para que ficasse pendurado, à vista de todos. Mais segundos arrastados, longos e crus, até que D.ª Cordélia pegara onde a outra largara.

“Foi uma pena a professora Anabela ter de se ausentar. Foi a professora da minha filha. Também era uma óptima professora, e uma senhora como deve de ser.”

Gatilho apertado, certeiro no alvo. A conversa acabara, a mensagem ficara. Os corpos desmobilizam e entraram na casa do Senhor, as senhoras de braços dados aos maridos, de cabeça inclinada, a delatarem segredos. Os maridos a olharem por cima do ombro, a disfarçaram, sem grande zelo, a busca da figura que dava corpo aos comentários.

O que fazia ela ali?

D.ª Eunice dera o braço à filha e inclinara também ela a cabeça.

“Sabias que ia ser assim, filha. Não é surpresa. Dá-lhes tempo, quem sabe…”

Enganara-se. Sílvia não sabia. Determinara recomeço sem detalhes no Porto. Chegara à vila e tudo observara com deleite: as casas de pedra, nuas ou caiadas de branco, a Casa da Colina, desconfortável e básica. Quanto mais diferente do Porto e de Lisboa, mais possibilidade do passado ficar a longas horas de distância, pregado aos prédios, passeios e jardins de um mundo que só podia ser imaginado, quando os pés assentavam em terra batida, as ruas tortas cheiravam a animais e estrume, e para lá das poucas casas pouco mais se avistava que giestas, árvores e pedras, num horizonte que se esticava no limite da vista. Naquele presente, não havia onde o ontem se esconder. E por isso, tudo a acalentara, mesmo o fino frio da montanha a cortar a pele. Até então.

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