Instantâneo 2

Coimbra. Sala pequenina. Gente que vem porque o amigo diz. Estamos na franja do mundo. Da azáfama, das elites, do burburinho. Estamos à margem. Estamos em contra-mão. Como ele está, diz. Como estará sempre. Na minoria. Será sempre a minoria, por muito tempo. Até um dia deixar de o ser. E nisso acredita e há-de acreditar. Até ao fim. Somos poucos. Cada vez mais poucos. Não há tristeza, nem desistência. Não é possível havê-la, quando já se percorreu tanto. Para desistir, é no início, quando ainda não se fez caminho, não se deu um passo, não se caiu no poço e de lá se conseguiu sair. Agora, já só resta ir até ao fim.

De todas as apresentações, há um momento que fica e que dá alento. Que impede que a vontade morra de pernas cansadas. Em Coimbra, foi ele. Os olhos raiados de lágrimas que nasceram noutros tempos e nunca mais se perderam. Esteve no Aljube. E esteve lá outra vez, ao ler Eduardo. Esteve lá em tudo, mas mais que tudo, esteve quando Eduardo passou por uma Lisboa que continuava a passear e a fumar cigarros e que passava por eles, atrás de grades como macacos, sem parar para olhar ou para pensar. Que via as carrinhas e olhava para o lado. E ele pensava, e voltava a pensar e disse-me. Estamos nós aqui para isto. Sozinhos. A minoria. A enlouquecer. A encher de cicatrizes perenes o corpo da alma.

@Rita Cruz. 2021

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