Confissões de uma estreante

Na quarta década de vida, no porto de onde até há pouco já só se embarcava em direcção ao sol posto, venho eu madrugar. O bom senso da idade avisa-me que me cale, que a ingenuidade nesta idade já não fica bem. Mas que fazer, se ela vive em mim? Nunca aqui estive antes, nunca vi nada disto. Na cidade da Guarda, já neste milénio, quando inauguraram o primeiro Centro Comercial da cidade, foram notícia os vários acidentes nas escadas rolantes, esse artefacto perigoso  nunca antes visto, pisado ou sonhado por muitos dos habitantes das aldeias cercanas. A primeira vez é sempre a primeira vez. Com dez anos, ou com oitenta. 

Aqui onde estou, na base das escadas, aldeã do mundo literário, vejo com espanto como as palavras deixaram de ser minhas. Até ontem, eu era dona delas. Quem as lia, eu sabia. Se as deixava correr à vontade, era porque sabia porque caminhos elas se metiam. Mas depois de arrumadinhas num livro, viram-se de mala feita e largaram a correr para fora da casa e do bairro, com passadas indómitas de filho adulto. A metáfora é velha e gasta, mas como o disse esta semana num desabafo certeiro, só o é porque é excelente. E acrescentei, com toda a verdade, que por muito que delas se apropriem, só eu é que lhes mudei a fralda e lhes limpei o rabo… o que me levou a pensar na quantidade de vezes que me casei com os filhos dos outros. Palavras que re-escrevi, que citei, livros que rabisquei, sublinhei, copiei. Tantas palavras, que já só recebi asseadas e a saber usar a retrete. E é então que percebo que me devo calar, porque o que sinto já todos eles e elas sentiram. Este momento, com ingredientes de susto e de espanto, em que a obra ganha vida própria. 

Nas mãos de desconhecidos, as estórias deixam de ser bem aquelas que eu escrevi. Os personagens já não convivem só comigo. Têm agora amigos e inimigos que eu desconheço, vidas onde eu não participo. As mensagens que eu embrulhei com esmero e escondi nas malas, nem sempre são encontradas, mas andam por lá outras que me espantam. Deslumbrada, vasculho cadernos de folhas solas à procura delas, a perceber se fui eu que lhes dei corpo. Encontro-as, oportunamente, no fundo dos bolsos dos meus calções. Desconfio que na verdade não estavam lá, que as enfiei à socapa depois de as saber, quando me apanhei distraída. 

Enfim, as palavras, e o que delas transpirou, já não me pertencem. A usurpação passa-se à distância, e dela só vou recebendo lampejos. Ainda não coloquei o pé na escada rolante. Observo-a com prudência, meço-lhe detalhes, atento nos segundos de cada movimento, porque não quero esparramar-me no primeiro degrau. Sei, contudo, que esta minuciosa observação só tem importância agora, antes do primeiro passo. Sei que nunca mais vai ser assim. Por isso, perdoem-me a ingenuidade e deixem-me confessar-vos o fenomenal fascínio deste momento. Porque com queda ou sem queda, sei que um dia não vou sequer baixar os olhos ou hesitar, quando as usar para subir ou descer andares de um Centro Comercial.

© Rita Cruz. 2021

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