O mundo do meu parque

Do mundo do meu parque, vejo o dia passar. Sentada no ramo da mais alta árvore, difícil de alcançar, mas que subi com agilidade e perícia. Levo anos nisto. Conheço quem passa. Os que vão acompanhados e os que vão sozinhos, os que caminham de mãos dadas, os que sorriem, os que correm e os que se arrastam, os que atiram migalhas aos pássaros e os que alimentam os peixes com batata fritas de pacote. Vejo-os todas as manhãs e às vezes à tarde, quando a tempestade se esquece da hora e, ou se atrasa, ou se adianta.

Vejo o mundo pequenino, neste ramo da árvore, penso como é fácil deixá-lo amadurecer e apodrecer, aqui sentada, em inócua inércia. Uma pena cai-me no pensamento. Pequena. A mais pequena, talvez, de um pássaro do tamanho do meu polegar. Fica pousada, como pousados estão os projectos, como pousada está a vida. Há ano e meio pousada, à espera. Um bafo quente, que tudo é sempre quente aqui, pega nela, levanta-a, larga-a na vertigem de um infinito. A pena cai, trémula no ar, incerta de equilíbrio. No cair, parece ter vida e dança. Parece ter propósito e determinação, um objectivo e um caminho, e nada que a impeça — a não ser que a pedra cinzenta e orvalhada, onde cai, não seja onde queria chegar.

Sentada, observo. Apuro a janela dos olhos e encosto a mão à testa, a fazer quadro do que vejo, e alcanço mais longe, para lá do parque, onde há movimento e ruído. Não está tudo pousado, sentado, à espera. Vejo. Passam extremistas e radicais, passam guerras e fomes, passam injustiças e desamparo, passam órfãos e mercenários, passam enganos e violações, corpos decepados, estripados, sonhos amputados. Passa tudo, em ano e meio que não passa nada. Vejo, ao longe. 

Desencosto a mão, baixo os olhos. Há tartarugas a sairem do lago e da sombra, a caminharem trôpegas nas rochas com a água a escorrer da carcaça e das patas grossas, em busca do pedaço de sol que as ramagens não usurparam. Vejo-as melhor se descer do alto da árvore. Com a mesma perícia com que a subi, desço, com urgência de as ver. Também levo anos disto. 

Quando estou cá em baixo, deitada, e elas de pescoço esticado banhado de luz, já não me interessam. O corpo descansa em relva tão fresca e macia, e o horizonte é feito de verde e azul, e digo que não mais volto a subir. Mas chegam as formigas, grandes e pequenas, pretas e vermelhas, umas que só fazem comichão, outras que picam, todas tão incómodas como a consciência. 

Não me é fácil, nesta vida, a inócua inércia. E também levo anos disto.

Levanto-me. Passo no café, compro um latte e vou para casa a bebê-lo, com um dúzia de formigas agarradas à bainha das calças. 

© Rita Cruz. 2021

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