Durante uma semana, antes do dia da partida, ela fazia as malas e o menino desfazia. Espalhava as roupas pela casa. Escondia-lhe o passaporte.

As vidas que por mim passam

Gosto dessas manhãs, em que nos sentamos ao balcão da cozinha, chá e café na mão e, sem a pressa do costume, conversamos. Não são muitas, há sempre alguma coisa a fazer, os segundos do relógio tão presentes como a batida cardíaca. Mas nessas poucas manhãs, em que não há a urgência dos ponteiros, ela tem sempre imenso a dizer e eu imenso a ouvir. Mais do que conversas são monólogos de alguém que passa muito tempo sozinha e não gosta. Para mim, são uma porta aberta a um outro mundo, uma viagem sem sair do espaço da minha cozinha, levada às costas do inglês imperfeito que tem, aos solavancos nas frases sinuosas, à janela limpa de recordações tão nítidas que creio que a surpreendem a ela também, de assim serem ainda.

Às vezes deixo essas conversas inspirada, outras perturbada. Como ontem.

Chávena de café doce na mão, contou-me que era ainda muito jovem quando saiu das Filipinas para trabalhar em Singapura, como empregada de uma família chinesa. Sei que nasceu e cresceu pobre e abandonou a escola antes de acabar a primária. Sei que não havia dinheiro para que os seis filhos passassem o dia sem trabalhar, mas também sei que não se importou. Era criança e não sabia das coisas da vida, não sabia que os amanhãs são coisas do hoje. Sei que não se importou nada de deixar uma escola que a aborrecia e para a qual nunca tinha tempo de fazer os deveres e onde havia sempre a vergonha à espera, porque o professor insistia em perguntar e ela, escondida atrás do aluno da frente, encolhida, a desejar não estar ali, nunca sabia responder. A escola nunca tinha sido coisa de aprendizagem ou futuro.

País pobre e com poucas oportunidades, as Filipinas fornecem mão de obra barata para os países da Ásia e Médio Oriente com mais recursos. As mulheres trabalham como criadas, por vezes em regime de quase escravatura, e os homens na construção, também com poucos ou nenhuns direitos.

Saiu, pois, jovem das Filipinas e chegou a Singapura com um inglês mais pobrezinho que ela e sem nunca ter ouvido Mandarim na vida. A senhora da casa para onde foi trabalhar falava e entendia apenas Mandarim. Valeu-lhe os filhos da patroa, que frequentavam a escola primária, já falavam inglês e serviam de tradutores. Mas quando eles iam para a escola, ali ficavam elas as duas, a comunicar por gestos. Ela atrapalhada, porque além da língua que nunca tinha ouvido, havia o micro-ondas que ela nunca tinha visto, ou a máquina de lavar cheia de botões. Era preciso adivinhar tudo, porque quando lhe tinham perguntado, antes de vir, se já tinha trabalhado com electrodomésticos dissera que sim, para que não a excluíssem. Às escondidas, telefonava a outras Filipinas que trabalhavam em Singapura, descrevia as formas e os botões e ia aprendendo para que serviam e como trabalhar com eles. À noite, metia-se a ver televisão, novelas em mandarim, e a língua ia-lhe começando a fazer sentido. Foi aprendendo.

Quando ela chegou, a patroa estava já grávida de seis meses. Três meses depois, deu à luz um menino saudável, no Hospital. Regressou a casa no dia seguinte e depositou o bebé, sem mais explicação, na cama dela, como se fosse ela a mãe e ele seu filho. Agora que a gravidez tinha terminado, era preciso voltar a trabalhar. E assim foi, durante seis anos. A patroa era dona de uma coffe shop, humilde, mas com clientela. Saia de casa às duas da tarde e trabalhava até à meia noite. De manhã, dormia. De modo que ela assumiu o papel que lhe era pedido. Vestiu-se de maternidade. Era dela, a mão que pousava na testa do menino quando havia febre. Era dela, o colo que recebia o corpo cansado, ou amuado, ou magoado. Eram dela, os olhos que observaram os primeiros passos, os ouvidos que descodificaram as primeiras palavras.

Há na mente das crianças uma convicção, mais do que uma vontade, de que  o mundo é permanente. Que tudo ficará sempre tal e qual como está. Que uma mãe nunca muda, nunca parte, nunca abandona. E para o menino, ela era uma mãe. Mas ela não era. Não ainda. Era apenas filha. Uma jovem a trabalhar num país que nem sempre trata gente como gente. E então, no início da década de noventa, no culminar de seis anos de trabalho em Singapura, quando o esplendor económico dos tigres asiáticos reluzia em notícias e inveja, uma outra criada, Comtemplación, foi enforcada.

País pobre e disfuncional, as Filipinas fornecem mão de obra barata para países da Ásia e Médio Oriente com mais recursos. Enviam mulheres para trabalharem como criadas, cientes de um quase regime de escravatura que muitas enfrentam, e homens para construção, também com poucos ou nenhuns direitos. Eles e elas sabem ao que vão, porque há relatos dos que vêm, cartas e chamadas de socorro dos que ainda lá estão. Mas também há histórias de sorte, de patrões decentes e, sempre, com sorte ou azar, um salário que alimenta várias bocas. Era o caso de Contemplación. O magro salário que recebia em Singapura, que pouco lhe permitia fazer na próspera cidade-estado, alimentava quatro filhos e um marido desempregado nas Filipinas. No ano de 1991, foi presa. Acusaram-na de afogar uma criança de 4 anos e matar uma colega, Della Maga.

A história era turva na altura e, décadas depois, continua com contornos baços. Possivelmente, nunca se saberá exactamente o que aconteceu. Mas nas Filipinas, a versão dos acontecimentos não se ressente de dúvidas, não peca de pontas soltas. A verdade dos factos é transparente e límpida. Della Maga estava encarregue da dita criança. Nesse dia, foi negligente. Dava-lhe banho na banheira, mas distraiu-se e não deu pelo episódio epiléptico. Quando regressou à casa de banho, o menino estava sem vida, os pulmões encharcados de água ensaboada. A família foi avisada. O patrão chegou a casa e, cego de fúria, pegou numa corda, enrolou-a ao pescoço de Della Maga e enforcou-a. Consciente depois do que fizera, ciente de que em Singapura homicídio é pena de morte, elaborou uma história. Contemplación era amiga de Della Maga e tinha estado em casa essa tarde, antes do sucedido. Tinha sido ela, que afogara o menino e matara depois a amiga.

Contemplación foi levada pelas autoridades. Ignorante e assustada, ouviu o advogado que se apresentou para a defender e fez o que ele lhe disse: confessou insanidade, em vez de clamar inocência. Ao fazê-lo, tornou real uma fábula e enterrou-se nela. Quando mais tarde negou, em apelos e pranto, já a verdade vestia de mentira e a mentira de verdade.

As chamadas telefónicas da família passaram a ser diárias, às vezes várias vezes ao dia. Rogavam-lhe que regressasse, que em Singapura matavam criadas Filipinas ao entardecer.

O caso marinou durante quatro anos, mas em 1995 foi finalmente decidido o enforcamento de Contemplación. Saiu gente à rua nas Filipinas, aos milhares. A condenada tornou-se símbolo nacional, a encarnação de todos os abusos sofridos por tantas outras. Pedia-se que a deixassem regressar, que lhe perdoassem a vida. Singapura, a terra da ordem, da ditadura-exemplo, ouviu e respondeu com a ferocidade do seu sistema judicial. Contemplación foi enforcada à luz dourada do entardecer, na prisão onde viveu quatro anos, depois de se reunir uma última vez com os seus quatro filhos.

A história mudou-lhe a vida, disse-me, com a chávena de café vazia pousada no balcão e os ponteiros prestes a imporem outra vez o seu ritmo, o nosso tempo a acabar. Começou a haver chamas diárias da família. Às vezes, várias por dia. O irmão exigia que regressasse, os pais rogavam, pediam, choravam. Ela explicava que os patrões não eram todos maus, que os dela eram boa gente, mas não havia modo. Em Manila as pessoas estavam na rua, revoltadas, e falavam, contavam, confessavam. Mais casos de abusos vinham ao de cima. Fazia-se mais, em Singapura, que enforcar criadas Filipinas ao entardecer. O imaginário inchava como uma esponja: em vez de água, temores e terrores. Era impossível ficar, tinha de regressar. E desmoronar a delicada percepção de permanência.

Durante uma semana, antes do dia da partida, ela fazia as malas e o menino desfazia. Espalhava as roupas pela casa. Escondia-lhe o passaporte. O coração dela apertava, minguava e o peito onde está encaixado doía-lhe. Sabia que entregava ao menino o peso do abandono.

Na manhã em que saiu de casa, bem cedinho, ele dormia. A família despediu-se em lágrimas e pediu-lhe desculpa por chamar um taxi em vez de a levar ao aeroporto, mas era melhor assim. Ela que saísse de mansinho, antes do menino acordar. Mas ele acordou, mal a porta da rua se abriu. Estava em sobressalto, alerta. Apareceu na sala a tempo de se atirar a ela em pranto, de lhe agarrar o pescoço, o braço, a roupa, o que podia, enquanto a verdadeira mãe puxava por ele e o obrigava a largar. Foi assim a despedida. Quando o menino já só agarrava ar, a porta fechou-se e ela desceu as escadas a correr, a ouvi-lo gritar o nome dela.

Horas depois, já no aeroporto, prestes a embarcar, o beep apitou. Era a criada dos vizinhos, a dizer-lhe que o menino não parava de chorar, que a  dor era tão audível que todos lá em casa escorriam lágrimas com ele.

Nas semanas seguintes, na pequena terra onde a família vivia e ainda vive, amanhou-se para telefonar todas as semanas. Aos poucos, deixou de o fazer todas as semanas. Em algum momento, passou a fazê-lo só de vez em quando. Hoje em dia, vinte anos passados, ainda o faz, mas só em ocasiões especiais. Há poucos anos atrás, a trabalhar na Malásia, fez-lhes uma visita. Ele não a reconheceu. Homem feito e casado, em breve também um pai. A mãe, antiga patroa, mostrou-lhe as fotografias e relembraram a história da despedida. Falaram com desprendimento. Já não apertava o coração, já não havia lágrimas, mas risos. A memória mudara de cores, com a continuidade da vida.

Largámos a conversa, cada uma para os seus afazeres. Eu demorei-me a sair dali. Fiquei a olhar para ela. Nunca tinha visto antes, mas sei que nunca mais vou deixar de ver, atrás das rugas precoces e da boca sem dentes, uma jovem bonita e triste, uma mãe sem parir de um filho que se perdeu, uma eterna saudade calada de um pequeno corpo ao colo e mãos agarradas ao pescoço. Está lá, dentro dela, como tenho a certeza que está dentro dele, escondido atrás de um arbusto de esquecimento, no sopé da montanha de ossos e músculos, um menino pequenino em pranto, assustado, sozinho, abandonado.

© Rita Cruz. 2017

Crónica inicialmente publicada na rubrica Nós Lá Fora da Visão Online.

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