Distopia

We can’t keep on living like this, diz a manchete. As palavras escritas são-nos conhecidas. Estão muitas vezes encostadas aos lábios, e a língua gosta de dançar com elas. Quando não estão perto dos lábios, cada uma das letras, assim organizada, está metida no centro da mente, como um pedregulho no qual se tropeça, quando se pensa sem atentar onde. 

We can’t keep on living like this. E, tal como fazemos quando não conseguimos viver mais assim, vivemos. 

Não todos da mesma maneira. Alguns têm os ombros mais caídos, os olhos mais vergados. Alguns gritam, alguns choram, alguns têm os bolsos vazios e a pistola carregada. Todos, à sua maneira, cansados. Com um peso diferente nesse cansaço.

O peso do meu cansaço aumentou ontem. Tudo, por uma fotografia. 

Não notei logo. Vi-a, gostei, e parti. Mas ela veio atrás, como gata agarrada às pernas, à frente dos pés. No miar doce um embuste agreste. Tropecei, claro. E já não sai dali. Abriu-se um espaço oco à minha frente, a simples evidência, desenterrada sem querer: há ano e meio que não há um abraço. 

Percebi então porque me perseguiu, a fotografia. Eram aqueles corpos juntos, aquela reunião de amigos e familiares, descontraída, fotografada, partilhada. De repente vi-lhe a dimensão. Vi que olhava para ela como se ela fosse amarelada, viesse dum tempo impossível, dum passado descomplicado. Olhei-a com saudade de um tempo antigo, mas com a calma de quem aceita um presente distópico. Mas ela veio atrás de mim porque queira atirar-me à cara que essa calma não tem verdade: o que olho não é um passado, nem um futuro, mas um presente. 

Na Malásia, não se abraça há ano e meio. Não nos vemos há meses e meses e meses. Fecharam-nos as fronteiras, os passeios, as reuniões. Meteram-nos em casa mais vezes que nos deixaram sair. Fizeram da anormalidade a normalidade, e quase conseguiram. Olho para a fotografia e reparo como os corpos não têm um espaço entre eles, se juntam até não circular ar entre um e outro. Imagino esse abraço silenciado, e não sei como se diz e como se ouve. Como se articulam os braços com os troncos. Não sei como é possível deixar que os corpos se toquem, sem alarme nem denúncia. 

We can’t keep living like this. E contudo, vivemos. E contudo, todos os dias, na Malásia, há vozes a gritar que sim, que temos de continuar a fazê-lo. Exactamente assim ou mais ainda. Tive a pouca sorte, afinal, da pandemia me apanhar aqui. Vivo numa distopia. 

Aquela fotografia não devia ter vindo ter comigo. Rasgou-me a apatia, como quis fazê-lo. Transbordou a tolerância. O meu cansaço é hoje maior, o meu desânimo insuportável e a minha vontade de gritar avassaladora. De facto, da noite, só sobrou isto. Esta vontade parva instalada nas ramificações dos nervos, a murchar como veneno as pretensões de ontem.

@Rita Cruz. 2021

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