Delírios temporais de um cu

“… todos os meus ontens se encontram presentes neste beijo.”

O tempo não é linear. Nem o espaço. Estamos em Lisboa e em Maputo e no Chiúme, e na Picheleira e em Malanje e em Alvalade porque ele está em todos esses sítios ao mesmo tempo. Acontece com todos. Carregamos dentro do corpo a luz e a poeira de todos os lugares onde estivemos. Quanto mais velhos, mais pesados. Quanto mais novos, mais ignorantes da profunda incapacidade que o corpo tem de largar. Acumulamos sem saber. Recolhemos mais tarde. Tudo. Ele é enviado para a guerra. Provavelmente, poderia ser um dos que não tinha de ir. Não era pobre e deserdado. Mas foi. Para ser homem. E veio, cheio e pesado, tão cheio e tão pesado que por muito que largue bocados pelas ruas que atravessa com espanto de ainda serem, pelos corpos que penetra sem ternura, pelo mijo que liberta, limpo de paludismo e sujo de whiskey, nunca fica vazio. Nunca consegue ajustar o tempo. Tão cheio que não entra mais nada. E, ainda assim, tão magro como quando foi. Onde então, no corpo, tudo o que se tem? Por entre os ossos do crânio, a rebentar. Não se vai para a guerra para ser homem e volta-se tão magro como se foi, mas com a mioleira obesa de um cancro de sustos. Podemos, de uma vez por todas, entender isto?

“… levanto-me para urinar contra o que resta de um muro e tenho o mijo limpo, percebe, o mijo irrepreensivelmente limpo, posso regressar a Lisboa sem alarmar ninguém, sem pegar os meus mortos a ninguém, a lembrança dos meus camaradas mortos a ninguém, voltar para Lisboa, entrar nos restaurantes, nos bares, nos cinemas, nos hotéis, nos supermercados, nos hospitais, e toda a gente verificar que trago a merda limpa no cu limpo, porque se não podem abrir os ossos do crânio e ver o furriel a raspar as botas com um pedaço de pau e a repetir Caralho caralho caralho caralho caralho, acocorado nos degraus da administração.”

A minha sogra repete calendários. Tem-nos guardados. 1985, 1984, 1983, 1999, 2005, 2004, 2003. Descobriu que nenhum ano é único. Todos se repetem. Todos já existiram. A novidade é uma invenção de há uma eternidade. Está gasta. O tempo novo, linear, tão correcto e abarcável como os centímetros numa régua, é uma mentira. Não tenho 47 anos. Não tenho a soma de todos os anos que vivi. Tenho cada um deles em mim ao mesmo tempo. Tenho cinco anos e entro na sala da escola, sozinha, para me sentarem na última cadeira, onde fiquei muda e encolhida durante quatro anos. Tenho quinze anos e vomito os restos de um primeiro desgosto de amor. Tenho vinte, e ele ficou debaixo de um carro destroçado, tão esmagado que o caixão só mostrou metade do corpo. Tenho vinte e seis e estamos dezenas, esmagados entre a parede de madeira de uma palhota e as hélices de um helicóptero a rugirem ameaças no céu, suados de medo e de selva colombiana. Todos os anos, tão pegados ao corpo como aquele coala que uma amiga vinda da Austrália me deu na porta da adolescência, agarrado ao cortinado de renda do meu quarto.

Temos todos, o tempo e o espaço misturados. É só uma questão de dimensão, a forma exacta como nos afecta. Há sempre espaços divergentes a convergirem no corpo que usamos. A casa dos avós, a cheirar a arroz de frango e arroz doce, a sabão azul e a uma maresia difusa na luz de dias claros. A outra casa que a minha infância ocupou, onde havia uma cozinha pequena e eu estou sentada com os meus pais, e tenho um bolo com uma vela. Teria um ano, ou teria a vela desenhada no ventre a idade irreal que cumpria, aquela que ainda levo dentro quando me lembro do que não lembro? Todos temos. O tempo e o espaço misturado. E acreditamos, sem poisar debate, nessa linearidade de centímetros medidos à régua e ponteiros acusatórios à volta de números certos. Porque o debate, como tudo na vida, só existe na inquietação. Só na inquietação erguemos punhos e contestamos e desobedecemos. É da natureza que assim seja. A inquietação, neste caso, nasce da divisão das águas. Da experiência de uma fractura tão irreparável como a de uma jarra de cristal quebrada. Angola e Lisboa. A guerra e o país que a comanda. E tudo, a partir daí.

“Se a revolução acabou, percebe, e em certo sentido acabou de facto, é porque os mortos de África, de boca cheia de terra, não podem protestar, e hora a hora a direita os vai matando de novo, e nós, os sobreviventes, continuamos tão duvidosos de estar vivos que temos receio de, através da impossibilidade de um movimento qualquer, nos apercebermos de que não existe carne nos nossos gestos nem som nas palavras que dizemos, nos apercebemos que estamos mortos como eles, acomodados nas urnas de chumbo que o capelão benzia e de que se escapava, apesar da solda, um odor grosso de estrume, uma do cabo Pereira, uma do carpinteiro, uma do Macaco (…)”

Fecho, trémula, a última página e sussurro obrigada, António Lobo Antunes. E porque não se lê o testemunho sem mergulhar em angústia, uma outra angústia se me afigura. O receio de que a nova geração não o leia e não o entenda. Não se demore nas longas frases o suficiente para que alcancem a rasgar o corpo, o espaço, o tempo, habituada ao rol de curtas e breves irrelevâncias diárias, esquecidas depois de lidas, na dormência de um nunca acordar, tecidas na polpa desses polegares alucinados, donos das torpes mãos que agarram, descuidadas, o amanhã. Angústia que não cheguem lá nunca e se esqueçam de tudo. Porque é fácil esquecer tudo. Menos o que carregamos conosco. E que, pese intenso à nossa medida, pode não ser suficiente para nos salvarmos.

“Tudo é real menos a guerra que não existiu nunca: jamais houve colónias, nem fascismo, nem Salazar, nem Tarrafais, nem PIDE, nem revolução, jamais houve, compreende, nada, os calendários deste país imobilizaram-se há tanto tempo que nos esquecemos deles, marços e abris sem significado apodrecem em folhas de papel pelas paredes, com os domingos a vermelho à esquerda numa coluna inútil (…)”

@Rita Cruz. 2022

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