Por isso não escrevi. E agora, já não sei se me apetece. No céu azul que temos por cima de nós, no ar limpo, varrido da chuva dos últimos dias, na brisa que atravessa a sombra, na manhã perfeita que vivemos, onde a pandemia desinsufla de horrores como um balão ferido de ar, não sei se me apetece escrever, digo-lhe.

Dois mil e vinte e dois

Estamos sentadas na berma do parque, no café onde as mesas procuram a sombra e as cadeiras olham para as ramagens das árvores, a respirarem fugas de sol. Rostos rendilhados de luz e sombra. Lembramos. E dizemos, é cedo para lembrar, mas tarde para esquecer. Pequenos detalhes. Abraçamos o fim de uma pandemia, com todas os momentos que já se vestem de um absurdo que os questiona. Será que aconteceram alguma vez? Só sei que aconteceram, porque ainda tenho restos de ansiedade que se agarram ao peito em momentos inusitados. Como numa ida ao supermercado, ao vislumbrar um carrinho de compras no piso superior e pensar agarrá-lo, no sufoco de que não haja um no piso de baixo. Calma. Há sempre carrinhos no supermercado. Só durante um pequeno período não houve. Ou como quando me sento a planificar o mês e começo a transpirar desânimo, na certeza de interrupções e cancelamentos.
Estamos a chegar ao fim, e com o fim, já abraçamos aos poucos o esquecimento. Ouço-a dizer que vamos esquecer tudo o que não anotámos, porque enquanto o vivíamos era um novo normal e é sempre desinteressante falar do que é normal. Acho que tem razão, e tenho agora pena de não o ter feito. Mas também me lembro de porque não o fiz. Porque sempre que se falava e se escrevia, mesmo quando era para atravessar fronteiras, a realidade era a mesma e ninguém precisava de a ler para lá de a viver.  Por todo o lado as escolas fechavam, as mães desesperavam, a rua não era inacessível, as pessoas não eram mais razoáveis — por todo o lado, atiravam-se ao papel higiénico como se dele dependesse a sobrevivência.
As escalas eram diferentes, que eu bem as sei, mas vivia-se aproximadamente o mesmo. Por isso riamos sem fronteiras com os vídeos que brincavam com essas prioridades, ou com a escola em casa, ou com as desculpas para começar a beber às onze da manhã, com as filas no supermercado, com as estratégias para sair à rua, com as chamadas Zoom e os vislumbres de nudez, cuecas, calções. Mas se escrevíamos era porque esquecíamos que estávamos todos mais ou menos no mesmo e quando percebíamos que estávamos, percebíamos também que enfadonho era, ler sobre o que todos vivíamos. O que queríamos era fugir. Pelos livros, pelo ecrã, pela janela, pelos telhados do sonho.
Por isso não escrevi. E agora, já não sei se me apetece, digo-lhe. No céu azul que temos por cima de nós, no ar limpo, varrido da chuva dos últimos dias, na brisa que atravessa a sombra, na manhã perfeita que vivemos, onde a pandemia desinsufla de horrores como um balão ferido de ar, não sei se me apetece escrever. Porque outros horrores vieram ocupar o podium. Tenho saudades, digo, com a vergonha que acompanha as revelações indecentes. Desculpa-me, peço. Por detrás de todos os horrores, tenho saudades das possibilidades que houve. Quando os humanos pararam e os ecossistemas respiraram.  Quando um metecapto saiu com barulho e berros da liderança de uma superpotência.
O horror que agora começa, não lhe vejo possibilidades. Só lhe antevejo o bafo podre e desdentado de quem teima em não morrer, enquanto haja história humana. E não é só uma guerra, que elas estão sempre no menu dos dias, em qualquer estação do ano. Mas é a noção de fim que ela sopra. O receio de que talvez nem precisemos esperar por dar cabo do planeta aos poucos. Que afinal, baste apenas usar o que já criámos e que respira escondido há décadas, como um monstro debaixo da cama, que desaparece quando sempre que se acende a luz, até o dia em que não o faz, e fica, presente na densidade do ar, em pele e medo, palpável debaixo do colchão. Irracional? Como irracional parece ser explodir o mundo. Dar cabo de tudo o que podia ser, mas nunca foi. De todas as promessas por cumprir, das possibilidades que nunca se agarraram, da beleza a que nunca se apreciou, da humanidade que nunca se acarinhou, porque as diferenças sempre falaram mais alto que as parecenças. O receio que baste, afinal, ter um kamikaze a pilotar a história, um fanático que não se importe de implodir. E quantos fanáticos existem, hoje em dia, a boiarem à superfície dos povos. Parece-me questão de tempo, digo-lhe.
Despedimo-nos. O sol aqueceu, entretanto. Onze horas da manhã, e já nem a sombra nos salva. Vai ser um destes dias. Abrasador. De ficar fechados em casa. Quero despedir-me com votos de um bom 2022, agora que a pandemia é esse balãozinho desinsuflado, mas não sou capaz.

@Rita Cruz. 2022

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