Invisível

A casa onde nasci e passei a infância é grande, e fica longe, num país onde o céu ruge de fúria quando sol se esconde. Nessa casa, cabemos nós todos: pai, mãe, Rodrigo, Amélia, João, eu, e quatro criados de pele escura e voz quente. Cabe ainda a vizinhança inteira, que entra e sai sem pedir licença, por uma porta que está sempre aberta, sala adentro, onde está sempre uma mesa posta, ao pé da cozinha, onde há sempre iguarias no forno e Laurentinas a transpirar de frio. Nessa casa, há uma escadaria no centro da casa, logo à entrada, feita de mármore importado, com balaustres de ferro e corrimão de madeira envernizada.

Estamos no início de uma tarde de Sábado. Sei o exacto dia da semana, porque o senhor Ribaldo só vem almoçar nesse dia, e trás o Américo com ele. Ouvimos ao longe o estrondo das gargalhadas. O senhor Ribaldo vive nesta terra desde que é gente e aprendeu a rir-se como o céu, quando ele ruge. Ouvimo-lo de onde estamos, sentados no cimo cimo da escadaria, com olhos brilhantes de malícia infantil.

“Ainda está lá em baixo? Vê-la?”

Obediente, o Américo esgueira-se pelas fresta do balaustre, vasculha o andar de baixo e acena que não.

A Esmeralda, encarregue de olhar por nós, perdeu-nos. Somos os mais novos, eu e o Américo. As outras crianças, lideradas pelo meu irmão Rodrigo, o mais velho, de doze anos, ainda estão no jardim, e foi assim que ela não deu por nós quando eu arrastei o Américo pela mão para dentro de casa. Eu só tenho seis cinco anos, mas gosto do Américo. Ele não sabe, ou talvez desconfie, e não sei se gosta. Mas é tímido demais para não se deixar arrastar, e eu tenho mais quatro meses do que ele e não gosto de ser contrariada. De modo que ele vem comigo. O Américo tem uma cara redonda, perfeita, e uma voz suave e miudinha, doce como um pudim de mandioca. Suspiro quando o ouço e imagino que venha a ser um bom pai para as minhas filhas. Dez, são as que quero ter, como dez são as bonecas que decoram o meu quarto, caras de porcelana, todas elas brancas, porque pretas não seriam crianças, mas criadas. O Américo é branquinho também, mais do que eu. E é tão bem comportado como as minhas bonecas. Comparamos a cor da pele e a dele é mais branca que a minha, e eu sonho com crianças de pele ainda mais translúcida.

“Anda!”

Digo-lhe, quando tenho a certeza de que a Esmeralda anda tonta à nossa procura noutras paragens da casa ou do jardim e não está ali em baixo, onde o corrimão acaba. Tem ordens para não me deixar escorregar pelo corrimão abaixo, mas eu continuo a fazê-lo quando não a vejo. Quanto mais me proíbem de o fazer, mais o faço. Escorrego sentada, escorrego deitada, a saia para trás, as cuecas à mostra. Antoninha, menina, que ainda cai! grita-me, o branco dos olhos incandescente no rosto preto, as narinas inflamadas no pânico. Olha para mim e olha à volta dela, aterrorizada que a patroa venha e lhe grite a incompetência que ela, coitada, tinha de sobra, forçada a parecer ter mais que os treze anos que tinha. Ó menina, olhe as cuecas à mostra… já não grita, fala baixo, com vergonha do que diz. Vergonha de que alguém a ouça ou vergonha por mim. A menina rica que não tem modos.

Arrasto-o, pois, o Américo. Levo-o para o alto das escadas, para o segundo andar onde elas acabam, e ele vem, sem ousar contrariar-me. Vou mostrar-lhe a minha perícia. Vai-lhe transbordar do corpo admiração por mim, quando me vir a descer o corrimão, a desafiar velocidade e proibições. E assim me lanço. De pernas abertas e mãos no ar. Em segundos, escorrego verniz abaixo e estou outra vez no início das escadas. Visto de gozo o rosto, salto para o chão e aterro de pé. É o supremo domínio da acrobacia, aquele ponto final, aquela elegância ao terminar. Lá de cima, o Américo aplaude com força, sorriso esparramado nos lábios. Eu faço-lhe sinal para que desça também. O Américo não tem uma escadaria assim em casa, onde praticar, por isso sobe para o corrimão sem grande jeito. Como eu desci deitada de costas, o Américo quer-me imitar. Talvez ache que é a única forma de o fazer. Eu posso esclarecê-lo. Dizer-lhe que da primeira vez que desci fui agarrada ao corrimão com o corpo inteiro, braços, pernas, barriga, e desci tão devagar como uma lesma numa folha de couve. Mas escolho não o fazer. Prefiro que ele pense que foi assim desde sempre, que nasci a saber dominar o corrimão de uma escada.

O Américo vira-se, para encaixar as costa. O corrimão é estreito, escorregadio e o corpinho inábil dele não atina no equilíbrio. Devagar, muito devagar, as costas começam a escorregar para o lado direito, que não é o lado das escadas. Os segundos desatam então a engolir minutos e é ainda mais devagar que ele vai escorregando. Penso que o Américo podia sido mais cuidadoso. Por precaução, podia ter mantido o peso mais para o lado esquerdo, onde a queda, a haver, seria escassa e inconsequente. Mas não. Talvez, afinal, também ele me queira a transbordar de admiração. Talvez, afinal, sempre goste de mim. Ou talvez já resida nele a convicção de que um homem consegue sempre fazer mais e melhor do que uma mulher — uma lição que afinal se aprende depressa, leccionada desde cedo por um pai, uma mãe, pela vizinhança inteira daquele bairro ou doutro qualquer. O que quer que seja que o motivou, descuido, orgulho ou arrogância, o resultado está ali. O corpo escorrega devagar para a direita, em lânguidos segundos de absoluta fatalidade.

Juro que lhe vejo os olhos a abrir com a preguiça de um acordar. Os braços atirados para cima com o vagar duma tartaruga na areia da Ponta Mamoli. A boca a desenhar um grito que tarda a sair mais do que o corpo leva a cair. Direitinho ao chão, com um estrondo que finalmente mingua os segundos e dá ao tempo o tempo certo. Ouço-o gritar e sinto o sangue a regressar às pontas dos dedos. Descubro com pasmo que é possível ao coração parar por tempo incontável, sem que ao corpo lhe faça falta o pulsar do sangue.

Depois do grito, um silêncio breve, antes do reboliço. Os corpos adultos passam por mim aos encontrões, em rajadas de vento que me atropelam. Eu, tal palmeira fina no centro da tempestade, vou e venho com eles. A mãe do Américo solta um grito ao pegar no filho. O braço direito do Américo está dobrado onde não devia estar. Como se tivesse mais um cotovelo. O pai dos meus dez filhos chora e berra como se com gritos pudesse apoderar-se do tempo e voltar lá acima, mandar-me às urtigas e descer as escadas em vez do corrimão.

A minha mãe abana-me com força.

“Emilia, o que aconteceu ao Américo?”

Aponto para o cimo do corrimão. O meu dedo treme. Sou eu a culpada, penso. Mas ninguém me acusa de nada. A culpada, já está decidido, é a Esmeralda, que chega do jardim já a tremer e que, à frente de todos leva duas estaladas do meu pai. As mãos grossas, pesadas, deixam-lhe o lábio a sangrar — culpa dela, que mordeu o lábio quando o estalo a abanou. Mas eu sei onde reside a verdadeira culpa. Hei-de aprender que a justiça é conceito maleável nas palavras, nos tribunais, nas leis, mas nunca na consciência. Lá dentro, não marina em dúvidas. É o que é. A culpa, que eu nunca vou admitir, é minha.

O meu pai oferece-se para levar o Américo e os pais ao Hospital. A Esmeralda, a pingar sangue e com o corpo esguio a tremer como cana de bambu, tenta convencer-me a regressar ao jardim. Fala-me aos solavancos, tão baixo que mal a ouço, sem me acusar também de nada, habituada a que a vida a trate assim.

Algumas horas depois, o meu pai regressa. O Américo partiu o braço, anuncia. Chato, mas nada que não se componha. Podia ter sido bem pior, e aquela Esmeralda é uma incompetente, e as estaladas bem servidas, e provavelmente pouco para o que merece.

O Américo vive duas casas depois da nossa. Uma casa mais pequena, como todas as outras da minha rua, com um jardim perfumado de jasmins. Mas tardo a vê-lo outra vez, dias, ou mesmo semanas. Tem o braço engessado e a mãe não o larga. Está proibido de sair de casa para brincar até no jardim. Não me olha no dia em que o avisto à janela, e sei que para ele a culpa é minha. Não me deixa tocar-lhe no braço de gesso, quando o visito com a minha mãe. É assim durante semanas. Mas depois passa. Quando faço seis anos, o assunto, as culpas, a queda, o gesso está tudo esquecido e arrumado. Sopro velas e comemos bolo. Somos mais crescidos. Não há rancor. Pelo contrário. O Américo deve-me o maior favor da vida. Aquele braço partido foi o melhor que lhe aconteceu.

Até àquele dia, o Américo era só mais um de cinco filhos, e nem sequer o mais novo. Essa era a Lidinha, com quatro meses. Mas com o braço coberto de gesso e o susto do que podia ter sido e não foi, a família descobriu-o entre os filhos. Até a mãe deixou de prestar toda a atenção à única filha, ainda bebé, e passou a dividi-la irmamente. O Américo, por seu lado, mudou. Rodeado de atenção, tornou-se mais melado, mais frágil. 

Aquele braço desfigurado tinha entrado olhos dentro e vestido de corpo a dor. Ninguém duvidara dela. Era visível, palpável. O que os olhos viam, os raio-X confirmavam. Não era possível dizer Américo, filho, deixa-te de fitas que isso passa. A dor daquele dia resgatou-o da periferia e colocou ao centro. E ali permaneceu sempre, mesmo depois da dor se esgotar. Ali estava ainda, menino sem crescer, quando deixei de viver naquela rua, naquela terra. Quando aquela casa grande, com a escadaria de mármore, balaustre de ferro e corrimão de madeira, com a vizinhança e os almoços, a sombra das acácias, os convívios diários, e até a Esmeralda, se esfumaram no horizonte e delas só ficou memória baça, poeirenta, onde não consigo pousar sem espirrar.

Não há poupança na compaixão, quando a dor se veste de braços e pernas partidas, de cabeça rachada, de dedos entalados, feridos, amputados Lembro-me desse Sábado, porque tenho inveja do Américo. Uma inveja mais amarga que todas as invejas. Porque a minha dor não é igual à que lhe arrebatou o corpo naquela tarde. Não é feita de ossos e tecidos rasgados, mas de solidão e angústia, de monstros insaciáveis que nunca dormem nem descansam. É tão invisível como sangue nos lábios de uma criada preta, e gera a mesma falta de compaixão.

© Rita Cruz. 2021

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