Os lugares que são nossos cachorros

Somos donos dos lugares que ocupámos. Como cachorro atrás da porta, esperam por nós. Anos depois, reconhecem-nos ainda, e trazem nas patas os abraços possíveis. Somos todos donos de lugares que pertencem a outros também, de outra forma. Cachorros de outras raças. O nosso meigo, talvez, aquele feroz, outro irrequieto.

Os lugares que são nossos cachorros, podem mudar. Aquela rua, que percorria para levar os miúdos à biblioteca, tem um prédio novo. Aquela livraria, onde acabei a vaguear no meu primeiro fim de tarde sem filhos e que me deixou esgotar, em dois minutos, duas horas de sossego, já não existe. Como não existe a gelataria onde íamos, como cães, buscar refresco pela língua.

Os lugares que são nossos cachorros, ao mudarem assim, também ficam iguais assado. O parque, onde madrugava com o mais novo às costas, a ouvir podcasts enquanto o sol levantava, para que ninguém em casa acordasse com ele, mantém o mesmo horizonte e os mesmos caminhos. De lá, ainda se vê Melbourne sem se ver. A imensa cidade escondida em arvoredo, engolida pelas copas verdes de milhares de árvores, como se não existisse para lá da linha dos arranha-céus da city.

Quando os lugares que ocupámos nos reconhecem e saltam com patas ansiosas e língua de fora para o nosso colo — os que são meigos e reconhecem em nós alegria de reencontro — e nós olhamos para o tamanho das patas e a cor do pelo e a forma do focinho, a anotar as diferenças e as igualdades, eis que também anotamos o quanto mudou o nosso colo. O quanto as mãos com que acariciamos o lombo se movem de forma diferente. O quanto o nosso corpo cede ao peso de um cachorro que talvez cresceu, ou talvez minguou, que tal é possível nos cachorros que são os lugares que ocupámos. E então podemos entristecer. Ou encher de alegria o peito. Tudo pode acontecer, na vida que nos acontece. Por vezes já o sabemos. Outras, somos apanhadas de surpresa. Porque esperávamos assim, e foi assado. Porque a alma escorregou na perda, em vez de se debruçar nos ganhos.

Por vezes, os cachorros que são os lugares que ocupámos trazem entre os dentes surpresas. Brinquedos antigos com que querem brincar, momentos que querem que atiremos ao ar, para eles buscarem. E esses brinquedos são por vezes fatias de nós que se desprenderam e nunca nos fizeram falta. A não ser quando eles as trazem na boca e no-las pousam aos pés. E então, o espaço vazio delas queixa-se, naquele comportamento parvo de feridas que jazem silenciosas na ignorância e só começam a doer quando se olha para elas.

@Rita Cruz. 2022

Partilhar

Share on facebook
Share on email
Share on print

Subscrever O Blog

Leave a Comment

Your email address will not be published.